Por Carolina Valadares
A Guerrilha do Araguaia, que completa 40 anos em 2012, foi relembrada em solenidade no memorial da Resistência em São Paulo, no dia 14 de abril, e reuniu o presidente da Comissão da Anistia, Paulo Abrão, além de vítimas da ditadura militar, militantes de defesa dos direitos humanos e o autor do livro “Guerrilha do Araguaia – A esquerda em Armas”, historiador Romualdo Pessoa Campos Filho.
A Guerrilha do Araguaia (1972 a 1974) foi um movimento de resistência à ditadura em vigor à época. O grupo do Araguaia era formado por 70 guerrilheiros e foi combatido pelo Exército Brasileiro com 10 mil soldados. Até hoje cerca de 60 corpos de guerrilheiros continuam desaparecidos.Apenas dois militantes, Maria Lúcia Petit e Bergson Gurjão Farias, tiveram seus restos mortais encontrados, identificados e sepultados.
“Não será fácil romper com essa cultura do esquecimento”, disse Paulo Abrão, lembrando que a Guerrilha do Araguaia não foi um episódio qualquer da história do Brasil, mas sim um momento no qual houve um massacre direcionado a um conjunto de brasileiros resistentes em uma das maiores mobilizações militares. “Temos hoje um processo de mudança cultural que pode fazer com que nossos antropólogos e sociólogos escrevam futuramente que temos identidade de um povo resistente contra a opressão”, completou.
No solenidade de comemoração do aniversário da guerrilha, também foi lançada a segunda edição do livro “Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas”, do historiador Romualdo Pessoa Campos Filho, resultado de mais de 10 anos de investigação sobre o assunto.
Romualdo contou que retornar ao Araguaia causa um sentimento profundo. “Todas as vezes que acompanhei as escavações foi gratificante por um lado, pois senti que a dor das famílias era amenizada, mas por outro, vemos a história passando na nossa mente”.
Ao relatar a trajetória que o levou a escrever o livro, Romualdo lembrou que o impulso principal era a necessidade de contribuir para que a Guerrilha do Araguaia fosse inserida na história brasileira. “E este episódio ainda é uma história inacabada”, disse, em referência às muitas informações ainda não tornadas públicas sobre o ataque das Forças Armadas e o paradeiro dos corpos.
Baseado especialmente na narrativa dos camponeses que testemunharam as ações da ditadura, Romualdo disse que escrever o livro foi um compromisso “com os camponeses, os familiares e a história. A história se constrói com fatos concretos. Pode-se esconder a verdade por um tempo, mas não para sempre”, defende.
O evento, chamado Sábado Resistente, terminou com homenagens. José Moraes da Silva, presidente da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, o Zé da Onça, recebeu das mãos do presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, a certidão oficial de anistiado político.
Outros homenageados foram José Dalmo Ribeiro Ribas, irmão do guerrilheiro Antonio Guilherme Ribeiro Ribas, que representou a luta dos familiares pela verdade e a justiça e Andrey Mendonça, pela denúncia contra o coronel da reserva do Exército, Sebastião Curió Rodrigues de Moura.
